escrever… numa hora dessas?

Desde muito cedo eu carrego um ímpeto por escrever. Eu mal sabia algumas poucas palavras e as primeiras frases. Eu nem tinha ainda histórias para contar. Escrever ia muito além disso, mas eu já precisava me expressar na forma escrita.

A minha avó manifestava preocupação para a minha mãe quando me via sozinho. Ela me observava brincando com carrinhos ou bonecos ou mesmo com alguns gravetos e me via falando comigo mesmo. Talvez fossem os primeiros diálogos sendo forjados.

Eu lia novelas e romances e imaginava enredos alternativos ou novos desfechos. Convivia com o capitão Nemo e com o viajante do tempo. Também me vi náufrago inúmeras vezes. Depois, conheci o físico Felix Hoenikker e o capitão Charles Marlow, o bombeiro Guy Montag, o astronauta Kris Kelvin e a mercenária Molly Millions, entre tantos outros.

Acabei seguindo um caminho profissional que me permitiu evoluir no domínio da escrita. Também aprendi que o domínio dessa ferramenta está relacionado ao domínio de outra. Para saber escrever é necessário ter supremacia sobre o próprio pensamento.

Tendo escrito dezenas de artigos científicos e relatórios técnicos, eu me sentia como Ulysses, protelando seu retorno para casa, amarrado (por mim mesmo) ao mastro de seu barco para ouvir as sereias. E elas diziam: — Escreva para fora dessas linhas!

— Crie para além desses limites!

Então… escrever, sim.